A religião e a minha
infância. – 08/05/2013
Sanidade e
libertação
texto 01
Fui, decerto, uma criança simples e normal. Estudei em escola
pública; ainda não terminei a faculdade que comecei: - uma bolsa para
cursar Administração obtida pelo sistema Prouni. Nunca tive oportunidade
de gastar um centavo com a minha educação, contudo, os momentos de desenvolvimento com os amigos, escola pública, com as brincadeiras de época com pipas, piões de madeira com pregos nas pontas, bolinhas de gude e, surpreendentemente, com a igreja que meus pais frequentavam para buscar a verdade e, se eu permanecesse firme e fiel até o fim, teria a bênção da vida eterna que me era oferecida por Deus. O
tal livro da vida. Blá, blá, blá! - Foram incríveis!
Meu pai era pedreiro, eletricista, encanador, pintor, telhadista e
tudo mais que possa haver de serviços dentro da construção civil. Quase
sempre, depois da escola, ou antes, ele me levava para suas aventuras
profissionais que desenvolveu sozinho e sem qualquer instrução
acadêmica; -sempre insistiu comigo que foi a luz divina em seu caminho
que o abriu a mente e o fez entender com facilidade o uso das
ferramentas e os fundamentos desse trabalho. Em minha época ingênua,
onde as “nuvens eram feitas de algodão”, sentia essa explicação como
resposta para o meu senso comum, mas hoje, ao entender a política da
época, onde havia aumentos de preços absurdos dos produtos nas
prateleiras dos mercados, políticas conservadoras contra informações
sobre o uso de anticoncepcional e o plano Cruzado, de uma geração pós-militar, onde não conseguiam manter os preços fixos alavancando juros
altíssimos e associando-se com altos níveis de desemprego, meu pai foi,
sem qualquer dúvida comum, outro sobrevivente desempregado com cinco
filhos e uma esposa quase sempre doente! - Passamos perto da pobreza, às
vezes sem condições de comprar mantimentos para uma refeição decente.
Minha mãe sempre se queixou de não poder dar condições básicas de
subsistência aos seus filhos, e isso, com certeza, a deixou mais
debilitada.
E não querendo deixar a política da época de lado, vieram alguns
planos do governo para estimular a economia, brecando a inflação: planos
Bresser, Planos Verão e o mais conhecido, o plano Collor, que se
dividiu em I e II, que firmava então o confisco de cadernetas de
poupanças; - de fato, minha família, nessa época, não tinha e nem sequer
sonhava em ter conta em bancos, mas pessoas que tinham não iriam fazer a
reforma planejada, ou o conserto e manutenção de qualquer item ou
propriedade que tivessem, pois seus bens financeiros estavam
confiscados. Afetou-nos diretamente, principalmente meus pais, a
buscarem em seu deus as respostas e a esperança para épocas melhores...
Sempre busquei respostas na racionalidade; em fatos, até mesmo quando criança, era racional com as questões que afligem cada época de um ser humano: - minhas atitudes de vencer em uma briga no colégio ou um jogo de futebol, até mesmo atualmente com o meu filho e ex-companheira; essa questão ativa gera diversos conflitos, sou um péssimo irmão, filho e marido! Mas sempre tentei dialogar e os cabelos que vão ficando grisalhos fazem-me compreender a verbalização e a aceitação, até mesmo da ignorância!
Passei toda a adolescência e parte da infância trabalhando e estudando; em alguns sábados ou domingos, quando podia, jogava futebol com alguns colegas de época. Era um dos melhores jogadores do bairro; todos me queriam em seus times naquela hora de escolha crucial dos membros de cada grupo. Mas era certo quase que, quando não trabalhava com o meu pai, eu ia fazer bicos com um tio, irmão de minha mãe, que gerenciava vendas de imóveis para uma construtora; - entregava panfletos nos faróis das ruas próximos de projetos prediais ou do loteamento em que ele divulgava a venda.
Um dos
pontos que mais marcou o meu julgamento sobre o mal que a religião pode fazer
em uma sociedade, foram, com toda certeza, os julgamentos de passagens de
ensinamentos bíblicos engajadas e metaforizadas na sociedade por pessoas, em sua
maioria, com pouca instrução sobre o universo e a ciência de circunstâncias
específicas que acontecem de forma gradual, lenta e imparcial em nosso planeta;
- a verdade é única e não lhe cabe nenhuma dúvida sobre tais questões. Em
todos os casos, em um País de terceiro mundo, com péssimos níveis educacionais,
pessoas simples de intelecto levam e guardam essas verdades em seus corações
como esperança para melhorar de vida e, quase de uma forma ingênua e galopante,
usam o ensinamento medieval e repugnante pregados ou ensinados em um altar “sagrado” ,com
uma cruz na parede e um homem preso a ela que foi assassinado por nós com permissão de
seu próprio pai, sobre àqueles que o cercam e que pensam por perspectivas diferentes e que
se não o seguirem, irão arder, queimar, sufocar, enfim, em um lugar horrível,
criado por esse mesmo homem para afugentar um anjo que se revoltou e virou o
mal. – Oras, até no mais baixo nível de uma vida em grupo, fatos e
circunstâncias adversas não se resolvem com atitudes de morte, de queimar, de
usar o fio da espada ou cárceres infernais como resolução; isso é coisa da
gente, do homem - eis a grande questão de se pensar um pouco sobre a
inteligência de um ser supremo que sabe e entende todas as coisas. Textos
considerados sagrados, escritos há séculos, em uma época extremamente difícil
de se administrar qualquer coisa, principalmente uma sociedade em um tempo sem
recursos médicos e tecnológicos; - líderes precisavam controlar doenças, impor
regras e suas leis para homens bárbaros, e como qualquer evolução, fatos foram
sendo escritos de acordo com sua época; - uma que mais me deixa intrigado é a
proclamação do corte do prepúcio por deus dito a Abraão. Nessa época, doenças e
infecções de origem sexual precisavam ser controladas e estudos na época
comprovaram que essa parte, bem higienizada, sendo cortada, reduz consideravelmente infecções,
mas quem quer cortar e mexer nessa parte tão importante para qualquer homem sem
instrução? – Coloque um ser supremo que vai fazer você queimar, arder, sufocar
ou ser extirpado de seu povo, pronto, havia filas para o ato cirúrgico. E as
circunstâncias e seus momentos foram carimbados em cada época.
Narrarei, de forma coloquial, alguns assuntos históricos pesquisados pela internet, mas o crucial dessa narrativa serão fatos e acontecimentos ocorridos e visualizados por mim quando criança; - preconceito sem explicação por objetos que trazem lazer, desenvolvimento e questionam nossa atitude e nosso espaço na imparcialidade planetária. O quanto líderes religiosos, sejam pastores, anciões e qualquer tipo de clero, quando determinados a divulgar suas crenças para obtenção de lucro, infringem as leis do humanismo e da cidadania através do misticismo e medo; instruem a levarem a palavra de seu deus (há mais de 5000 catalogados) pelos mais variados lugares, e suas bagagens de argumentos recheadas com um pânico iletrado de explicações fanáticas e sem nexo substancial, principalmente aceitados e absorvidos pelos cantos mais pobres e sem recursos do planeta.
Um dos acontecimentos que mais me marcou foi quando tinha cerca de 12 ou 13 anos; não tínhamos televisão. Algumas vezes, eu passava a brecha que tinha no muro para ir à casa de nosso vizinho e assistia aos programas infantis com um amigo. Meu pai, como já havia dito, não tinha condições de comprar um aparelho para a nossa família, mas uma tia minha resolveu doar para nós. - Nem posso chamar de televisão, pois era muito pequena, acredito que de oito polegadas. Hoje, quando as vejo, estão acopladas em caminhões; enfim, para todos em casa, foi a melhor coisa que poderia acontecer. Ficamos cerca de um mês com ela. – Lembro de algumas coisas darem errada no trabalho do meu pai e ele ficar enfurecido com pessoas tratantes e que gostam de tirar vantagens sobre questões de negócio. Ele sempre buscava a “palavra de deus” em suas visitas na igreja; quase sempre eu estava por perto: - um senhor em um púlpito lia trechos da bíblia e os interpretava da maneira que bem quisesse e todos que o ouviam, achavam e ainda acham até hoje que deus fala através daquela leitura e interpretação daquele homem. – Em uma dessas leituras, lembro-me que as coisas mundanas para a igreja, como festas, Papai Noel, adornos, corte de cabelos, maquiagem, homem sem camisa e muitos outros assuntos considerados abomináveis eram tachados e ridicularizados pelos senhores que “deus usava” para falar conosco. Uma dessas abominações foi a televisão colorida! A nossa que fora doada nem colorida era! Mas ainda lembro desse homem ter lido qualquer trecho do livro preto, o levantou sobre sua cabeça e dizia que um irmão ou melhor, um membro da própria igreja relatou que a televisão era necessária, ao menos para a irmandade se informar sobre os acontecimentos políticos da região e de sua cidade, de modo geral, mas ele gritava e dizia que a informação estava em suas mãos e que não era necessário mais nada: a bíblia!! - (Deviam sempre discutir nos bastidores sobre "quem falava mais com deus".) – Meu pai voltou para a casa naquele dia e jogou a televisão no lixo associando-a aos problemas com as “pessoas tratantes” sem entender os planos econômicos de um período que justamente iria perseguir a “corrupção e os marajás’! – Alguns dias depois uma irmã minha de cerca de 07 anos foi atropelada ao sair para a rua justamente porque não tínhamos mais o nosso passatempo considerado amaldiçoado. Ela se recuperou, vive e frequenta a mesma igreja...
Neste mesmo período, comecei a questionar e procurar entender, de minha forma e contexto, assuntos que ouvia nas reuniões da igreja em que meu pai me levava junto com os meus irmãos. Esses cultos eram conhecidos como “reuniões de jovens e menores”, onde por um período de 02 horas pela manhã cantávamos hinos, orávamos, ouvíamos testemunhos de supostas obras de deus nas vidas das pessoas e por fim, o ancião, que segundo meus pais era guiado pelo espírito santo, lia trechos da bíblia e interpretava para todos na igreja. Ouvia muitas orientações sociais erradas; religiões que não eram verdadeiras e sobre como essas pessoas seriam queimadas; e o bordão mais usado pelo “guiado pelo espírito santo” era o “lenha para fogueira”! Não conseguia compreender o porquê de um ser que criou tudo iria queimar pessoas vivas! Abominavam culturas avessas aos ensinamentos cristãos, uso de adornos como brincos e maquiagem, o corte de cabelo feminino, a depilação, a televisão, o computador, as festas de São João, o Natal, ficar sem camisa, enfim, coisas corriqueiras para uma vida social eram pontos cruciais de desagrado a deus....
Lembro-me de que não gostava de ir! Algumas vezes fui forçado! Neste mesmo período do culto da igreja, ou seja, em quase todos os domingos pela manhã, alguns amigos que tinha no bairro se reuniam para jogar futebol na quadra. Disse ao meu pai que não queria ir mais à igreja. Ele insistiu e disse que não queria que eu fosse para o jogo. Minha irmã mais velha ouviu e disse que não queria também ir, conclusão, apanhamos; não teve igreja e tampouco futebol! Algumas semanas depois, ao procurar orientação na igreja, foi sugerido por um membro mais entendido das relações humanas e com um nível bom de escolaridade que não era necessário nos forçar; - meu pai foi aconselhado a não nos agredir para ir sem a gente querer, que nosso tempo ia chegar, que deus iria nos levar na hora certa! Não precisaríamos mais ir, mas imagine se fosse um troglodita social com mania de grandeza e soberba que meu pai encontrasse naquele dia; - e digo, cultuam apenas insanidade e conformismo nessa doutrina do que libertação e irei narrar as que vivi na pele durante minha formação social.